Intento

W.F. Nietzsche

Espero, a partir deste momento, realizar duas ações: uma que vai de encontro às minhas memórias, à minha história e à minha experiência; e outra que vai de encontro ao outro, para estabelecer um diálogo, feito de similaridades e dissonâncias, aproximação e afastamento, aprovação e repúdio; iniciar assim, com aquele com quem faz contato, uma ligação que possa ir além da simples identificação, para algo que se realize de modo similar ao próprio objeto em questão, ou seja, a música em sua relação com aqueles que são tocados por ela.

Pois há de se admitir, independente do estilo (ou da falta dele, dirão alguns), nenhuma música é capaz de agradar a todos, mas a todos que lhe agradam, ela se faz presente e inevitável. Seja pelo canto que irrompe incontrolável, pela lágrima que desce incontida, pela alegria que explode no rosto ou pela serenidade que instala em meio à tormenta, é dessa música que pretendo falar.

Não ignoro que, há muito tempo, tanto a música quanto a arte, de um modo geral, tornou-se um produto, cuja função última é ser consumido e gerar lucro. Sei que para muitos esse é um paradigma a ser desafiado, questionado, discutido, e ainda que, de certa maneira, eu simpatize para com essa causa, não é esse meu objetivo ao realizar esse trabalho.

Não é minha intenção dizer qual música é boa e qual é ruim, quem pode ser considerado artista e quem é comerciante de emoção barata. Essa discussão é muito antiga e a cada dia que passa me parece mais distante daquilo que realmente me diz respeito.

Em tempos onde toda e qualquer pessoa pode ter acesso a praticamente todo e qualquer tipo de música, me parece bastante superficial querer dizer o que é bom e o que é ruim para cada um. Falar bem ou falar mal, como se sabe, geralmente só se presta a gerar publicidade e nada me parece mais desnecessário ao nosso tempo que mais uma peça publicitária.

Por outro lado, é possível observar em nossos tempos um apagamento das referências. Torna- se, a cada dia que passa, mais e mais proibido qualquer tipo de censura, qualquer tipo de crítica, qualquer tipo de diferenciação. Não apenas parece obrigatório aceitar qualquer tipo de criação, como tenho a impressão que deseja-se o próprio poder de criação em si ao alcance de todos, independentemente de sua relevância. Nietzsche, filósofo alemão grande entusiasta da música, certa vez escreveu que “sem música, a vida seria um erro”. Penso ser possível partir dessa premissa para afirmar que “sem vida, a música é um erro ainda maior”.

Obviamente me parece meio improvável que o filósofo pudesse imaginar a que ponto chegaria a disseminação de sua arte mais querida, embora tenha preconizado em muitos escritos a tendência humana à massificação e subseqüente degradação.

Daí que, nesse sentido, meu objetivo é, com o máximo de cuidado e fidelidade que me forem possíveis, fazer o registro daquilo que, pela música, tornou-se maior que ela, por marcar uma trajetória. Para que se possa, dentro dos limites que me são inevitáveis, devolver a essa grande arte um pouco de seu sentido.

Ou, pelo menos, render-lhe aqui o único tributo que me é possível.

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